1/08/2015

Salaam Aleikum

Todas as regiões podem ser instrumentalizadas para serem tolerantes e não tolerantes em função de contextos históricos e políticos. Os cristãos foram perseguidos pelos romanos mas mataram-se entre si aos milhões na cisma protestante. Houve um tempo em que judeus expulsos de países católicos como os sefarditas da Península Ibérica encontraram abrigo em países islâmicos. Houve um tempo em que a civilização islâmica era mais tolerante e tecnologicamente e culturalmente mais avançada que a cristã. Houve as cruzadas, mas antes disso o Império Bizantino foi conquistado pelo Império Otomano. Existem radicais hindus e budistas. Os totalitarismos de esquerda ateístas geraram igualmente horrores e violência extrema. Vários acontecimentos históricos originaram a laicização dos estados europeus aos longo dos últimos séculos onde os valores da revolução francesa moldaram as nossas sociedades para aquilo que são hoje, originados a reboque do renascimento e do iluminismo. Relembre-se que tal não impediu o nazismo e o fascismo de surgirem com as consequências que se conhecem.Contudo, em 2015 a total liberdade de culto, a garantia dos direitos das minorias está consagrada no Ocidente. À excepção do Vaticano não existe nenhuma teocracia na Europa. No mundo islâmico não surgiram dinâmicas homólogas e já na historia recente vivida por nós podemos assistir mudanças que às luz dos actuais valores consagrados no Ocidente podem ser encaradas como involutivas. A Arábia Saudita, o Irão, o Paquistão e a Mauritânia são oficialmente teocracias. As minorias religiosas, nomeadamente os cristãos, são ostracizados socialmente e vítimas de violência e terrorismo em muitos locais. Essa violência não é apenas dirigida a outras religiões, veja-se somente o caso do atentado indescritível que matou 140 crianças no Paquistão.A apostasia pode levar à morte no Sudão, um simples roubo é punido com a amputação das mãos, numa interpretação literal da Sharia na Nigéria islâmica. Na lista da OCDE dos 20 países do mundo que mais discriminam as mulheres não há nenhum ocidental mas há vários muçulmanos. De direitos de homossexuais nem vale a pena falar. Há em parte significativa do mundo islâmico encruzilhadas e lutas internas entre conservadores e progressistas cujos desfechos são imprevisíveis. Veja-se o que sucedeu com as primaveras árabes em que os movimentos progressistas regrediram contra a expectativa inicial, relembre-se os conflitos ocorridos no Irão e mais recentemente na Turquia. Ou seja, existem problemas internos graves que estão para além da loucura demente e felizmente minoritária do ISIS e das explicações ignorantes que colocam a explicação do terrorismo e do ódio ao ocidente nas “políticas europeias”, na questão palestiniana ou na guerra do Iraque e até há quem refira as Cruzadas…. (Um nota: apoio a causa palestiniana e a intervenção do Iraque foi uma vergonha inqualificável). Por fim, ressalve-se que a reposta a dar deve ser assente nos valores que dizemos apregoar. Implacáveis com os radicais, mas “integristas” no relacionamento com os islâmicos que vivem na europa, garantindo que os seus direitos são tão respeitáveis e inalienáveis como os nossos. Na relação com os países islâmicos compreender que cada estado tem as suas idiossincrasias e esperar que as mudanças a ocorrer surjam por osmose evitando o delírio da imposição de padrões culturais à força. No entanto não cair na ingenuidade dominante da relativização extrema.