11/13/2016

Leonard Choen

Quando Leonard Cohen tinha 15 anos, conheceu um professor de flamenco num parque em Montreal e este não só lhe ofereceu a primeira guitarra como também lhe ensinou os primeiros acordes e as primeiras canções. Cohen não sabia nada sobre o homem e um dia este não lhe deu uma lição pois tinha-se suicidado, evento que teve um grande impacto nele (nele, Cohen; mas pensando bem, também teve grande impacto no professor): as canções e a morte passaram a andar de mão dada na vida do canadiano, que no seu último disco cantava “I'm ready, my Lord”, aceitando por canção a morte e assim completando o círculo.

A morte não era tema alheio a Cohen, que por tanto namorar as sombras foi apelidado de godfather of gloom. Mas também não foi o único tema e será até exagero considerar que o autor de Songs of Love and Hate não ponderou bastas vezes na beleza que se esconde na esperança da manhã seguinte. O que nos leva à súmula: que nos deixou Cohen? Quais são os seus temas?

O universo mental de Cohen não é simples: é judeu e tem particular apreço pelas escrituras judias, sendo que isto não o impede de ser mestre no budismo zen da escola Rinzai – nos anos 1990 passou cinco anos num mosteiro zen à saída de Los Angeles e tornou-se amigo do mestre Joshu Sasaki Roshi, que já vai nos 105 anos e o ensinou a fazer um bom Bloody Mary. Mais recentemente interessou-se pelo misticismo hindu sendo que também tem um interesse particular no sufismo.

 

Isto não é trivial e não é inteiramente compreendido por uma boa parte do seu público. A demanda espiritual, como o próprio admitiu várias vezes, é uma tentativa de compreensão ontológica que nele parece, por vezes, travar uma batalha contra a depressão endógena de que padeceu toda a vida – e que marca temas como The darkness (de Old Ideas) ou a tremenda Avalanche, de Songs of Love and Hate. Ao Guardian, em 2012, Cohen falava dessa depressão “enquanto pano de fundo de angústia e ansiedade, o sentido de que nada corre bem, que o prazer é impossível e que todas as nossas estratégias culminarão em ruína”. Já perto do fim libertou-se dela: vítima de um cambalacho que lhe levou todo o dinheiro, atirou-se à estrada e esse mundo prático, de sobrevivência, trouxe-lhe a paz que tanto procurou (como por mais do que uma vez afirmou) nas drogas, no álcool, nas mulheres, nas canções, na leitura e na religião, na escrita (de caracteres e de canções).

E no entanto ele era possuidor de um humor requintado e perseguia mulheres. O amor não foi só o amor: foi o caminho que o levou até às musas (e o afastou delas). Marianne e Suzanne não são apenas mulheres – são musas, as indutoras do amor. Talvez ninguém tenha escrito tanto sobre o amor: de uma noite, em Chelsea Hotel no 2, masoquista em I'm your man, irreprimível e condenado em Let's sing another song, boys (a mais bela das canções), simplesmente devasso em Don't go home with your hard on (o título é auto-explicativo) ou sem adjectivo que o qualifique em Famous blue raincoat (a mais bela das canções).

Não vale a pena esconder que por mais que o espiritual e o carnal se encontrem nas canções de Cohen, na vida foram muitas vezes inconciliáveis. Se a traição e o abandono fazem parte do seu menu amoroso, o desespero surge não raro como inevitabilidade – o Cohen dos três primeiros discos é muito isso, ao ponto de cantar “One hand on my suicide/ one hand on a rose”, em Stories of the street.

Mas esse é o preço a pagar pela liberdade, e a liberdade de Cohen não é apenas a externa, política, que encontramos na segunda fase da sua carreira, dos sintetizadores, a partir da década de 1980 – como em Democracy, por exemplo, ou First we take Manhattan. É também e sobretudo a liberdade interna de quem sabe que cada um arca o peso dos seus actos e uma escolha implica uma perda – é isso que está em Bird on a wire. A política, a “simples” política que é feita das relações entre uma comunidade veio depois, quando Cohen aprendeu a socorrer-se da ironia para reflectir as contradições eternas que grassam através dos tempos e que encontramos – encontramo-la implícita ou explícita em There is a war ou Everybody knows.

 

Tornou-se um apreciador da sabedoria misteriosa que se encerrava num aforismo e para o fim a sua escrita tinha cada vez mais esta dimensão. Uma famosa linha de Anthem, “There is a crack in everything, that's how the light gets in”, é na realidade uma variação de Rumi, poeta sufi do século XIII. Mas Cohen não era um profeta nem um pregador, apesar de tudo: a simples consciência que tinha dos seus roubos conferia uma dimensão humorística à maior parte dos seus trabalhos.

Um deprimido que não era lamechas, um romântico que recusava o balofo, um político que não perdia tempo com partidos, Cohen impregnou as suas canções de dúvida, e saltou de tema em tema, de obsessão em obsessão não como um pós-moderno auto-indulgente, antes como um xadrezista clássico à conta com peças que se recusam a mover-se no sentido pré-determinado. Não fez xeque ao rei, mas nunca mais veremos peões tão belos.

Do original: https://www.publico.pt/culturaipsilon/noticia/o-mistico-racional-que-pensava-na-espiritualidade-da-carne-1750889

Take this Waltz.

Não basta ser em vida um nome frouxamente iluminado para cintilar dois séculos mais tarde. Nem sequer basta uma grande obra ser grande e manter-se firmemente à distância para que a posteridade lhe restitua o brilho do dia (…) a verdade é que muitas obras se esgotam prematuramente por serem demasiado admiradas. Essa grande fogueira da glória com que os escritores e artistas se regozijam e que lança as suas últimas chamas na ocasião da sua morte, queima neles uma substância que doravante faltará à sua obra. Quando o corpo é tudo o que têm, nada sobrará quando morrerem”.

Ante a morte de um dos grandes poetas do nosso tempo, Leonard Cohen, gostaríamos que esta afirmação de Maurice Blanchot, não fosse verdade. Mas o carpir desmedido (onde me incluo) pode não evitar que que daqui a dois ou três dias nos apaixonemos por outra qualquer novidade e o anjo melancólico com voz de barítono ficará, como de resto acontece aos poetas, no reduto dos que amam contra as circunstâncias e a passagem do tempo e, depois, dos que contra as modas e as ditaduras do gosto encontram os poemas na praia do coração, como sonhava Paul Celan.

Se não se tivesse tornado músico, se não cantasse os seus poemas é provável que a maior parte das pessoas não o conhecesse. Até porque a sua poesia que atravessou mais de cinquenta anos e conquistou legiões de ouvintes/leitores em várias gerações está longe daquilo que é hoje tido como “boa poesia”. Desde logo pelo registo confessional, pelo ritmo, pela religiosidade, pela ambiguidade sobre a qual se erguem as suas imagens mais claras e que remete inevitavelmente para a tradição judaica do texto infinito. O texto, o poema, nunca está completo, fechado, mas dirige-se a um vazio que abre para a interpretação.

A sua voz ora provocatória, ora melancólica, ora sexual, ora puritana parecia não ser posta à posteriori sobre os poemas mas sim nascer com eles, de dentro deles. Sendo igual a voz de Cohen nunca era a mesma em cada novo poema cantado. Era mais ou menos intensa, mais provocatória ou melancólica, monástica ou abertamente sexual. Estas vozes que habitam o universo poético e musical de Cohen são também a expressão de outro dos aspetos que distingue a sua obra: o facto de haver em cada poema uma voz que é simultaneamente pessoalíssima e parte da experiência concreta do poeta, mas que, ao mesmo tempo, está carregada da experiência humana universal, de símbolos e sentidos que atravessam os tempos e que são partilhados pela grande comunidade humana.

Profundamente herdeiro da tradição judaica, embora nunca tendo feito disso uma bandeira, a sua poesia está empapada no Antigo Testamento, religião e… sexo. Sexos femininos, corpos de mulheres onde se materializava a sua busca de Deus, da poesia e, em ultima instância, do Belo. A sacralização do corpo feminino legou-nos uma galeria de figuras de recorte enigmático, Marianne, Suzanne, Joana d’ Arc Alexandra, Heather… A experiência religiosa sempre frustrada, quer no Judaismo, quer no Budismo parece ter, na sua poesia, encontrado algum apaziguamento temporário no amor pelas mulheres. Eis outro tema tão pouco em voga na poesia contemporânea onde a descrença serve a uma boa dose de puritanismo. Talvez por isso Cohen seja um poeta tão amado pelas mulheres, tão cortejado por elas. Porque nele o corpo feminino não é nunca um objeto de uso, mas um altar religioso, ainda que desse encontro resultasse quase sempre a reiterada frustração de nunca alcançar o Absoluto.

Outra das heranças de Cohen é o poeta Federico Garcia Lorca e com ele toda uma tradição órfica da poesia. O poema surge para ser cantado e é nesse canto que ele se cumpre.

Leonard Cohen deixa uma obra vasta, onde, para além dos 14 álbuns de música original, há 13 livros de poemas e dois romances. Por entre as histórias, as cidades, as danças, a ameaça da catástrofe, da morte a poesia de Cohen assume inevitavelmente um tom profético. Não para anunciar um messias salvador mas para anunciar a impossibilidade de salvação. perante cada dia que nasce, cada nova tecnologia que surge, cada amor que nos promete redenção o poeta mais não faz do que recolher as cinzas.

Assim, a melancolia do poeta Cohen é menos por aquilo que se perdeu, menos pelo instante que passa, e mais sobre a impossibilidade de futuro. Nessa impossibilidade de futuro, onde ele se coloca a contrapêlo da tradição judaica do messianismo, ele explora a ambiguidade de tudo. Quer pela ironia, quer pelas figuras da tristeza, o nevoeiro, o frio, o inverno, as águas, do mal, das trevas.

Neste sentido, o poema The Flood, escrito no monte Sinai em 1973, regista essa suprema ambiguidade da poesia de Cohen: onde está a fé também está a dúvida.

The flood it is gathering
Soon it will move

Across every shoreline
Against every roof
The body will drown
And the soul will shake loose
I write all this down
But I don’t have the proof

É com a mesma fé e dúvida que nos perguntamos como Hölderlin: Para que servem poetas em tempos de indigência? Cohen é demasiado grande para leituras maniqueístas e demasiado distante para alimentar o sentimentalismo fast food tão cultivado no nosso tempo. Por mais simples que se nos afigure, a verdade é que este homem e esta que é a sua poesia são demasiado reverberantes, excessivas, dolorosas para aguentarem a voragem de um tempo que se alimenta do espetáculo e do circunstancial. E o canibalismo mediático onde hoje o devoram é um dos totalitarismos do nosso tempo e contra o qual ele sempre se posicionou ao cantar o silêncio, a introspeção, o recolhimento. Mas sobretudo ao posicionar a sua poesia e a sua música teimosamente fora da História e do circunstancial.

Como, de resto, se pode ler neste texto revelador Falar Poesia, que foi traduzido pelo poeta Vasco Gato para a editora Língua Morta, já este ano, num volume intitulado Lacre:

Já não há palco. Já não há ribalta. Tu estás no meio das pessoas. Portanto sê modesto. (…) chega-te para o lado. Fica a sós. fica no teu canto. Não te insinues. Trata-se de uma paisagem interior. É por dentro. É privado. respeita a privacidade do texto. Estas obras foram escritas em silêncio. A coragem da atuação é dizê-las. A disciplina da atuação é não as violar. Deixa que o público sinta o teu amor pela privacidade ainda que não haja privacidade. Sejam boas putas. O poema não é um slogan. Não poderá publicitar-te. Não poderá promover a tua reputação de seres sensível. Tu não és um garanhão. Tu não és uma mulher fatal.(…) não representes as palavras. As palavras morrem se as representares, murcham, e a única coisa que sobrará será a tua ambição.”

Original:

Trump.....

They said he wrote music to slit your wrists to, which in this week of all weeks feels timely. As it happens, I never felt that barb was fair to Leonard Cohen. True, his songs often told of gloom and defeat and darkness, but his voice was one of consolation – of sharing the loss by finding another who felt it too, of discovering the glimmer of love or light that might get you through.

My word, do we need that now. Cohen died on Monday, slipping out before he had to glimpse the news that has convulsed the world. He saw a lot in his 82 years, but he never had to see the words President-elect Trump. With his impeccable timing, Cohen spared himself that ordeal. But his songs anticipated how the rest of us would feel. Looked through the paper. Makes you wanna cry.

Trump and Obama put differences aside in first White House meeting
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The Trumpists and their sycophants outside the US taunt those of us who are fearful. Boris Johnson says we need to get over our collective “whinge-orama” and embrace the new reality. Iain Duncan Smith says Barack Obama was a cold fish anyway, and he’s glad to see the back of him. Nigel Farage chooses to describe America’s first black president as a “creature”. Why, Trump’s arrival could even be a good thing, they say: he might offer the UK a decent post-Brexit trade deal.

This is not only pathetic in its cravenness, grovelling to a bigot when the moment demanded some of the moral steel shown by Angela Merkel – who extended her hand to Trump, but only on condition that he accept basic human values including respect for the minorities he had so copiously insulted – it is also unforgivably myopic. It fails to see there is a much larger picture here. It is not hysterical to suspect that the world we have known, the postwar order that provided relative peace and prosperity for seven decades – spanning the lifetime of Leonard Cohen’s generation – is unravelling. Or as France’s ambassador to the US put it, in a tweet later deleted: “This is the end of an epoch … The world is crumbling before our eyes.”

What those who share his anxiety have in mind is the rules-based system that has allowed us to take international stability for granted, to regard it as the natural way of things, since 1945.

Central to that order has been free trade, broadly defined, along with a sturdy international architecture, designed to allow nations that once fought each other to resolve their differences diplomatically instead. It has consisted of an alphabet soup ranging from the UN and EU to the IMF and G20, and myriad others. And – not that it’s popular to say so – underpinning it all, down to patrolling the shipping lanes that make global trade possible, has been the leadership of the US.

For the last decade, foreign policy types have fretted that this set-up was under threat. Their worry was that a rising China, as it grew more assertive, would overtake the US – but that it would refuse to take on the obligations attached to being the world’s leading power. What few envisaged was that the threat to American leadership would come from the US itself, in the form of a president eager to shake off the duties shouldered by his country since 1945.

Yet that is what a Trump presidency augurs. He is opposed to free trade; a protectionist bent only on transactional deals in which America wins and the other side loses. Trump has no interest in spending US capital – diplomatic or financial – on upholding a global system that is, heaven knows, imperfect but at least aims to benefit everybody.

A paramount example: Trump’s team have signalled that one of his first acts in office will be to cancel the Paris accord on climate change. To reach that agreement with Beijing took years of effort by the Obama administration, and would soon have started reducing the carbon emissions that are choking our planet. It will take just a second, a stroke of the pen, for Trump to destroy it. He has threatened to do the same with the painstakingly brokered deal on Iranian nuclear weapons. Get ready for the future: it is murder.

But what I detect in those distressed by Trump’s election are more intimate concerns. How, so many have asked, do we explain this to our children? How do you raise a child to believe that lying is wrong, when a compulsive liar has been rewarded with the biggest prize on Earth? (The very first words Trump uttered in the Oval Office, during that Thursday encounter with Obama that was almost too painful to watch, were a lie. “This was a meeting that was going to last 10 or 15 minutes,” he said, boasting that the session had overrun. In fact, the meeting was scheduled to last an hour.)

We say that “cheats never prosper”, but Trump did not pay income tax for two decades – he cheated his fellow citizens, depriving them of the money needed to pay for the basic fabric of society – and he has prospered. What do you say to the child who says, “Mr Trump was right. Not paying taxes is smart.”

Parents of daughters were looking forward to pointing at President Hillary Clinton as proof that there was no goal beyond their reach. Now they can only look bitterly at that photo of New York Times journalists preparing the front page that was never published. Its planned headline: Madam President.

They will somehow have to explain, as my colleague Hadley Freeman has pointed out, how one of the most qualified people ever to run for president lost out to the least qualified. And they will have to tell their sons that no, it is never acceptable to grab women that way, even though Trump did it and bragged about it and was rewarded with the votes of tens of millions of Americans.

We tell our children that ‘cheats never prosper', but Trump did not pay income tax for two decades
They will have to find a new way to explain why casual, racially charged insult is wrong, even though it has been practised and endorsed from on high. Already non-white Americans are reporting incidents of abuse they’d never experienced before, just as ethnic minority Britons did after the Brexit referendum. Witness the man told to “fuck off” simply because he was overheard talking to his daughter in Spanish.

We tell ourselves, in the stories we read and the movies we watch, that in the end good triumphs over evil. To see Obama, a man whose moral integrity is not doubted, be replaced by a liar and a bigot is to confound that hope. To see Trump set about dismantling the Obama legacy, as if erasing his presidency, is to see that good is sometimes crushed. Everybody knows that the war is over. Everybody knows the good guys lost.

Yet somehow we will have to get through this darkness. Cohen’s preferred method was to count on love – “the only engine of survival” – and to see that sometimes a setback, even a disaster, can lead to something better. It is such small consolation, but right now I cling to it. As the old poet said, There is a crack in everything. That’s how the light gets in.

Ver original: https://www.theguardian.com/commentisfree/2016/nov/12/leonard-cohen-trump-world-too-dark?CMP=fb_gu